sexta-feira, 6 de maio de 2011

Conto: A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa

Conto: A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa

(Márcia Oliveira)


O livro Sagarana reúne uma coletânea de contos de cunho regionalista em que se verifica toda a inventalidade de Guimarães Rosa, no que diz respeito à sua linguagem literária e às suas técnicas narrativas. Os contos abordam temáticas como a aventura, os animais metaforizados em pessoas, reflexões fincadas na subjetividade e espiritualidade, assim como também na morte. O livro apresenta grande expressividade e originalidade. A obra e seu autor estão inseridos na terceira fase do Modernismo brasileiro ou Neomodernismo, como preferem muitos.


Mas, um de seus contos, em especial, me chamou muita atenção e tornou-se, inclusive, tema de um ensaio produzido para a disciplina de Literatura Brasileira IV da universidade, o qual me rendeu muitas alegrias e me proporcionou muito prazer. Trata-se do último conto da obra, intitulado A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Uma história rica em alegorias e questionamentos de cunho universal, que nos fazem refletir acerca dos eternos conflitos interiores e exteriores vividos pelo homem.


A Hora e a Vez de Augusto Matraga narra as peripécias heróicas de um homem peculiar do sertão de Minas Gerais, e assim como toda a obra de Guimarães Rosa, focaliza o regional mineiro e capta aspectos físicos, sociais e psicológiocos do meio interiorano.


A história tem como pano de fundo a luta entre o bem e o mal e, conseqüentemente, todo o sentimento de angústia, de medo, de culpa e de vergonha decorridos de uma tomada de consciência do homem que, influenciado pelos acontecimentos e pelo mundo das idéias cristãs, opta por uma dessas forças.


Personagens:


1. Augusto Matraga: na verdade, Augusto Esteves, filho do Cel. e fazendeiro Afonso Esteves. Um homem valentão e temido por todos, que deixava a mulher e a filha em casa enquanto bebia e vadiava com prostitutas. Um dia, já cheio de dívidas, perde os amigos e a mulher. Leva uma surra e é dado como morto. Depois disso, se converte e morre preocupado em salvar sua alma.


2. D. Dionóra: mulher de Augusto Matraga. Desprezada pelo marido, foge com outro homem. Nunca mais volta a ver o marido.


3. Mimita: filha de Matraga. Foge com a mãe, mas depois cai na vida em companhia de um homem desconhecido.


4. Sr. Ovídio Moura: homem com quem a mulher de Matraga foge.


5. Quim Recadeiro: amigo fiel de Matraga. Quando matraga leva uma surra e é dado como morto, Quim tenta vingá-lo e termina sendo assassinado pelos capangas do major Consilva.


6. Major Consilva: poderoso latifundiário e inimigo de Matraga. manda matá-lo após uma emboscada.


7. Mãe Quitéria e Pai Serapião: casal de negros que cuida de Matraga após ter sido vítima de uma emboscada. Este casal lhe ensina a moral cristã.


8. Joãozinho Bem-Bem: homem valente e temido. Tem muita afinidade com Matraga, porém ambos morrem no final, após lutarem um contra o outro.


9. Angélica e Siriema: prostitutas leiloadas numa festa popular ocorrida no início do conto. Matraga ganha Siriema por que era temido. Ele prefere Siriema à Angélica por esta ser branca, mas, ao vê-la sem roupa, desiste de possuí-la por considerá-la muito feia. (exigente o moço, não? rsrs...)


10. Padre: é chamado pelo casal de negros para abençoar Matraga e diz a ele: "sua hora chegará". Esta frase é lembrada por Matraga até o final da história sempre que lhe vêm à memória as injúrias que sofreu.


A Hora e a Vez de Augusto Matraga já rendeu muitos estudos de antropólogos e cientistas sociais, devido à riqueza em elementos culturais brasileiros. O antropólogo Roberto da Matta salienta que o herói Augusto Matraga é, na verdade, um "renunciador", ao passo que célebres personagens da Literatura Universal, ao contrário dele, preferiram seguir em busca de vingança, como o famoso Conde de Monte Cristo, best-seller de Alexandre Dumas.


Embora muitos estudos tenham sido elaborados com opiniões divergentes, percebí detalhes muito claros na essência do texto. A moral da história é a conversão cristã do protagonista. O rito de passagem (característica recorrente nas obras de Rosa) nada mais é do que uma forma simplificada da passagem de pecador a cristão.


Numa visão mais global e intertextual, vemos na saga de Matraga uma semelhança muito forte com a saga de Cristo, pois Augusto Matraga morre em nome da esperança e da salvação não só de sua alma, como também de outras almas. Ele entra em confronto com Joãozinho Bem-Bem para salvar uma família, que de uma forma alegórica, pode estar representando a sua própria família. Aliás, a família é um elemento de grande relevância na obra de Rosa, ela é sagrada e está sempre no topo de um pedestal. Salvar aquela família das garras de um bandido era, para Matraga, o mesmo que resgatar a sua própria família.


O local onde é travada a luta entre Joãozinho e Matraga lembra a Via-Crucis. No Brasil, lembro-me muito bem desta passagem bíblica retratada na letra da canção Faroeste Caboclo, de Renato Russo, no auge do sucesso como líder da banda Legião Urbana. O João de santo Cristo, "um homem santo porque sabia morrer", travava uma luta com o bandido Jeremias, um perigoso traficante da cidade de Brasília. No confronto, João morre heroicamente, salvando sua alma de todos os pecados que cometera. E assim como Matraga, João de Santo Cristo também perdoa sua amada (Maria Lúcia) pela traição de ter fugido com outro.


Sem dúvida, a morte representa o ápice do heroísmo para a moral cristã. Ela corresponde a um ritual de purificação da alma, ritual também presente em obras como O Barão, do escritor português Branquinho da Fonseca, autor pertencente ao Presencismo, uma espécie de primeiro momento do Modernismo em Portugal. A diferença é que em Branquinho da Fonseca a purificação é representada pelo vinho e não pela morte, mas em Guimarães Rosa, a morte é, indubitavelmente, o passaporte humano para a vida eterna no céu.


O arrependimento e o perdão, dois elementos essencialmente cristãos, constituem parte do processo de purificação. Augusto Matraga, ainda em vida, arrepende-se de ter perdido sua família e, a partir daí, tem início seu processo de conversão cristã. E a efetivação dessa conversão se dá quando, no momento de sua morte, Matraga perdoa seu assassino, perdoa sua mulher e pede que abençoem sua filha.


Esta é a Hora e a Vez de Augusto Matraga. É o momento da redenção. A salvação que ocorre por meio da vontade; da obstinação, algo muito forte no personagem. Ele entrega sua vida em nome do amor ao próximo, em nome do amor de Deus e morre feliz por ter cumprido sua missão, por ter se tornado cristão.


Espero que tenham gostado desta pequena amostra do ensaio e que eu não tenha contado tantos detalhes da história, a ponto de estragar a surpresa da leitura (rsrs). Mesmo assim, Sagarana possui muitos outros contos, todos muito bem construídos e apaixonantes, bem como toda a obra de Guimarães Rosa.

6 comentários:

  1. Toda historia "boa" tem que ter romanse,luta entre o "bem e o mal" e o bem vencer...

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  2. Muito legal a história!!emocionante
    seus altos a baixos nos entrigam

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  3. eu tambem acho isso leo,uma boa história tem que ter um romance numa historia,no mais violenta que seja...

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  4. sei que não tem nada a ver, mas Alessandra, consegui botar o contador do lado...

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  5. Um texto como esse acaba sendo muito interessante para jovens da nossa idade, pois o personagem principal é determinado e acaba morrendo feliz pois conseguiu o que queria.
    O texto também apresenta romance, um gênero muito procurado pelos jovens de hoje em dia.

    Meu resumo do texto:

    Augusto Matraga era um homem valentão que foi declarado morto após levar uma surra. Sua mulher junto a sua filha fugiram com um outro homem.
    Augusto, para salvar uma familia, briga com Bem-Bem e os dois acabam se matando. Momentos antes de morrer, Augusto perdoa seu assassino, sua mulher e pede bênção à sua filha. Augusto morre feliz por ter se tornado cristão

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